Na tentativa de reconstruir a vida, a família mudou-se para Ribeirão Preto. Mas, ali nada foi fácil. Vivendo em condições precárias e sem conseguir abrir sua própria relojoaria, Seu Jorge viu as dificuldades se agravarem. Pressionado pelas dívidas, tomou uma decisão difícil: retornar com a família a São João da Boa Vista, na esperança de que, em sua terra natal, alguma nova oportunidade surgisse. Contudo, essa mudança também não trouxe os resultados esperados.
Sem alternativas, decidiram tentar novamente em Ribeirão Preto. Dessa vez, porém, a sorte começou a mudar. Já resignado a não manter um negócio próprio, Seu Jorge conseguiu emprego em uma relojoaria. Foi ali que conheceu o jovem ourives João Rosseto, com quem criou uma amizade imediata.
Foi João quem sugeriu que abrissem uma relojoaria juntos — um convite decisivo. A parceria deu certo e, pela primeira vez em muitos anos, a família Assad começou a experimentar a tão desejada estabilidade: as dívidas puderam ser pagas, o aluguel da casa passou a caber no orçamento e o sustento da família deixou de ser uma luta diária.
Nessa nova fase, a rotina familiar também ganhava novos contornos: Cito, por ser um menino especial, deixou de ser aceito nas escolas públicas, enquanto Sérgio e Odair começaram a estudar e a ter uma infância mais regular. Apesar das dificuldades, foi naquele ambiente doméstico que a música encontrou solo fértil para germinar, expandindo-se para além do bandolim do patriarca.
O primeiro foi o primogênito, Cito. Dadas as suas condições, supunha-se que teria dificuldades de coordenação motora fina e de controle rítmico. No entanto, desde muito pequeno começou a batucar em todos os objetos que encontrava ao seu redor. Dona Ica, atenta, pediu ao marido que comprasse um pandeirinho para ele brincar. O que aconteceu, porém, foi inesperado: Cito revelou uma capacidade rítmica notável e, mais do que isso, desenvolveu sozinho uma técnica própria de tocar.
Quando Sérgio tinha doze anos, Dona Ica recebeu a visita de seu irmão, o tio Nico. Como era comum naquela casa ter um violão sobre o sofá da sala, usado nas rodas musicais que Seu Jorge promovia, Nico, com os únicos dois acordes que sabia, chamou a irmã para cantar. Ao ver a cena, Sérgio pediu que ele o ensinasse aqueles acordes. E foi assim que tudo começou. Dona Ica, que sempre teve o canto como algo natural, carinhosamente passou a cantar todas as vezes que o filho a perseguia com o violão em riste, enquanto cuidava dos afazeres domésticos.
Certo dia, após um desentendimento com o amigo Waldemar, parceiro violonista que o acompanhava nas rodas de choro, Seu Jorge chegou em casa depois do trabalho e presenciou a cena. Rapidamente perguntou ao menino se ele gostaria de aprender a "tocar violão de verdade". Diante do entusiasmo, pegou seu bandolim, e foi ali mesmo que as primeiras lições começaram.
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Dona Ica, acompanhada por Seu Jorge, Sérgio e Cito. Música: "Marina", de Dorival Caymmi.