Seu Jorge e filhos acompanhando um cantor local, em Ribeirão Preto.
As rodas de música, porém, eram extensas, e os meninos — apesar do talento — ainda eram crianças. Enquanto Sérgio lidava melhor com as longas horas, Odair costumava ficar sonolento. Foi nesse convívio intenso que Seu Jorge passou a descobrir, pouco a pouco, como ser também professor: observando os filhos, foi criando métodos próprios para sustentar a atenção e o entusiasmo. Um desses gestos curiosos, entre outros simples e eficazes, acabou se tornando hábito — parar na padaria e comprar providenciais barras de chocolate antes das noitadas musicais.
Enquanto o prazer de tocar com os filhos era crescente, Seu Jorge descobriu a existência dos gravadores de fita de rolo e, fascinado com a possibilidade de registrar o progresso dos meninos, conseguiu adquirir um aparelho Grundig. A partir daí, passou a usá-lo com frequência para gravar não apenas os filhos, mas também os músicos que os visitavam — afinal, sua casa havia se tornado um ponto de encontro constante. Entre esses visitantes estava Aparecido, caixeiro-viajante e virtuoso do violão, capaz de interpretar com maestria peças clássicas como "Sevilha", de Isaac Albéniz, e "Capricho Árabe", de Tárrega. Foi por meio do Aparecido que Seu Jorge e os filhos tiveram seu primeiro contato com o violão clássico — sendo apresentados a um universo musical até então desconhecido e que, num futuro não muito distante, passaria a integrar o cotidiano familiar.
Todavia, antes que isso acontecesse, os chorinhos começaram a povoar fitas e mais fitas de rolo. Certo dia, Garcia — amigo das rodas de choro e solista do Regional do Dauria, célebre por acompanhar Jacob do Bandolim — visitou a família e tocou com os meninos. A gravação desse encontro, disponível nesta página, revela sua empolgação diante do que presenciou: era comovente ver duas crianças dominarem, com tamanha naturalidade, um estilo musical que já se perdia no tempo. Garcia, então, prometeu conversar com Jacob.
A morte de Dona Francesca, mãe de Seu Jorge, ocorrida em 1956, deixou nele uma marca profunda. Ao longo dos anos, o desejo de retornar a São João da Boa Vista — para estar mais próximo do pai e das próprias raízes — permaneceu latente. Anos depois, com os filhos crescendo musicalmente e a situação financeira mais estável, Seu Jorge sentiu que esse movimento finalmente se tornara possível.
Assim, em meados de 1964, a família retornou para São João da Boa Vista, levando algum capital e a expectativa de boa aventurança.
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Sérgio, Odair e Garcia. Música: "Homenagem à Velha Guarda", de Sivuca.